Sol

Esses tempos se tornaram difíceis de se conceber. Eu não poderia dizer que houve uma jornada árdua; mas sim, foi isso que houve. Muito tempo com toda aquela explosão de pensamentos lacrados. Mas hoje eu sorri para o sol como sorri para meu céu preto e branco, há muito tempo atrás.

E eu não me arrependo de ter me justificado com invólucros de auto-piedade, Lucy. Nenhuma daquelas lágrimas foram em vão, e a combinação de palavras era a mais certa possível.

Essa noite eu tive um sonho. Não sei ao certo o que poderia significar, mas era uma mescla de algo suntuoso que permeava minha mente, com a idéia do que isso significava para o meu eu. Não espero que você compreenda; mas tudo isso aconteceu tão rápido; e era a coisa mais verídica que eu já poderia ter imaginado. Eu sonhei com seu significado também.

Então tudo o que consegui pensar foi na destruição, na farsa. Pensei na morte, não nego. Mas não há ninguém perfeito neste mundo, minha cara. Gostaria de narrar uma epopéia aonde minha mente saiu vitoriosa, salvando meu corpo, dilapidando todos os obstáculos da vida ordinária, que de alguma forma ridícula, se tornam massivos em nossa concepção.

Quando outras pessoas me dispersaram em lugares distantes; quando eu dediquei a minha vida ao que não existia; eu imaginei que eu não significava muito. Então lembrei que você existia. Em milhares de formas, em sorrisos tristes ou alegres; em lágrimas sinceras; você era real, Lucy.

A minha história não foi heróica, nem de longe, mas foi satisfatória. Meu eu sobreviveu a mim mesmo, e eu não poderia descrever feito maior vindo de mim.

Eu rompi o claustro que sufocava minha consciência, e agora imagino você. Louvo aos céus pela sua felicidade, minha irmã. Hoje eu deixei esse sanatório e espero que você leia esta carta sem nenhuma lágrima. Eu não pretendo voltar para casa. Estou sorrindo para o meu sol novamente, mas eu não estou sozinho. O mundo é minha companhia, até te encontrar novamente; até que eu possa curar você.

Sem nome

Idéias perfeitas que se mesclaram com fatos ruins. Como uma meditação constante e fragilizada por qualquer coisa. E tudo isso possuía uma conexão intrínseca com seu interior. Todo fato remoto se tornava uma explicação para o seu descontrole.

Ela era uma criança sem nome. Marcada pela hipotética vida de seu mundo obtuso. Desvendava os mistérios do que permaneciam dentro de si, sem perceber que eles nunca se manifestariam de outra forma; ou em outro lugar.

Tocava as flores que estavam por perto de onde morava e pensava na mais remota idéia delas perceberem sua presença. Isso a confortava.

Seus olhos permaneciam semi-cerrados devido ao calor iminente. Isso só intensificava seu estado inerte confrontado pelo vazio; o enfado ocasionado pela tristeza; mas que ela insistia em definir como vazio, pelo fato de suas definições de nada se assemelharem unicamente àquele sentimento.

Enquanto via o céu azul, deitada na grama permeava ilusões que brotavam da imaginação. Não pareciam com a realidade, exceto talvez, sua raiz mais profunda, que nem ela mesma poderia identificar. A miragem se fragmentava a cada novo pensamento disforme, que tomava o espaço de pensamentos casuais; aqueles que se tornavam mais raros a cada dia.

Cada momento de dor profunda, era eternizado num templo escondido da sua própria consciência no interior. Assim como os grandes feitos, os fatos dignos de serem marcados em seu pensamento ganhavam um espaço de tempo indeterminado na sua memória.

E assim, como toda conclusão de alguma história inconclusiva, a garota sem nome que não se permitia sequer ter um; desvendava as suas limitações criando mais e mais delas a cada dia, sem notar os fatos triviais que contribuíam para os feitos intrínsecos ao seu vazio.

Acessório

À noite, meu mundo é cheio de barulhos cinzentos; de almas cinzentas, de vozes cinzentas. Enquanto os únicos tons coloridos são os das roupas alheias; tão banais que surram e forçam minha mente a engolir todas essas presenças; inerte, com a tentativa de um singelo sorriso no rosto.

Engraçado, ela não parece se importar. E todos eles fazem a mesma coisa, todos os dias. As mulheres com seus decotes e batons vermelhos na tentativa de seduzir algum idiota; e eu me pergunto por que ela parece tão bonita. Eu estou aqui para ela.

Meus amigos me surpreendem com histórias pitorescas que envolvem mulheres. Finjo um leve interesse. Essas festas tornaram-se monótonas desde o primeiro dia no qual eu entrei aqui com meu terno cinza.

Ela, a de cachos dourados e vestido rosa é quem eu amo. Preciso admitir, por que de que adiantaria qualquer irrupção de sentimentos impregnada de verdades interiores diante do meu mundo vertiginoso, quando guardo aquilo de mais precioso? Ela tem um ar sublime de realeza e de superioridade. Eu não sei se é natural ou se ela se esforça para tal façanha, mas o faz bem.

Ela já é minha, todas as noites. Eu me pergunto se ela finge que não me conhece diante de todos aqueles outros homens de paletó. Eu me pergunto se ela está pensando em mim agora. Sinto como se o fenecimento de algo muito importante estivesse por vir, mas não sei ao certo o que poderia ser.

E ela era conhecida anteriormente por dilapidar o coração esperançoso de qualquer um que se entregasse ao que seus olhos viam. Mas às vezes eu me sinto absurdamente insubstituível em sua vida; afinal, ela me escolheu de alguma forma incompreensível; pelos bastidores, pelas sombras. Seu olhar se tornara tímido quando eu percebia que ela me amava.

Faz algum tempo.

Eu não havia me enganado. Há algum tempo eu imaginei que eu me tornei um acessório; mas fingi não me importar. Ah, mas ela tem tanto medo de ficar sozinha... Teme de que eu a abandone, e tenho medo de imaginar os tipos de coisas pelos quais ela teve que passar em sua vida. Ela vibra ao falar em seu passado, mas não exatamente a verdade; não não, a verdade é aquilo que ela guarda para si mesma, no interior do seu coração, preenchido e protegido por mentiras. Ela aprecia o fato de que eu tenha pena dela. Eu percebo cada sentimento encoberto no seu rosto tênue e sublime; por que eu me torno impotente quando me surpreendo na oportunidade de vê-la outra vez.

As flores coloridas da primavera daquele dia. A injeção de sonhos que me dopou por ela. Ela sempre costuma fazer isso comigo, aliás; algumas vezes mais, outras menos. E desconfio que seja nos dias aonde ela tem mais o que fazer para se distrair; quando me surpreende pensativo olhando para fora da janela. Me droga com sonhos. A primeira vez parecia mais bonita.

Sinto como se estivesse sob efeito de qualquer coisa da qual não me lembro. Antes havia tanto para se pensar. É algo inverossímil constatar que eu estou esquecendo seu rosto. Sua fisionomia magra, seus olhos claros e cabelos dourados permanecem martelando em toda parte do meu coração; mas eu já não posso lembrar direito de como soava sua alma para mim.

Durante aquela festa, uma celebração somente pelo ato de festejar; uma balbúrdia advinda da banalidade, eu pude relembrar de mim mesmo; enquanto seu sorriso vermelho de batom berrante abria-se largamente como se fosse o dia mais feliz de toda a sua vida, para todas aquelas pessoas distantes de mim. O mesmo sorriso que ela dava ao me ver; ironicamente. É uma pena... Quando o efeito dos sonhos passa, tudo torna-se mais difícil.

Relva

Muitos minutos se passaram desde que ela despertara naquele lugar. Ali parecia tão quieto que ela podia ouvir o barulho initerrupto do seu relógio de pulso.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Estava com uma garrafa de bebida do seu lado. Era uma relva noturna e se admirava de não ter amanhecido. Pensou em levantar, mas concluiu que deveria ficar ali mais uns minutos.

Não queria voltar para casa.

Não depois do que fizera. Talvez eles se preocupassem e juntassem algumas pessoas pra descobrirem que estava alcoolizada numa pradaria por perto.

Parecia fabuloso.

Imaginou se se preocupariam em buscá-la. Imaginou que desculpa daria dessa vez.

Talvez ela apenas se desculpasse, como sempre. Talvez eles a perdoassem e esquecessem. Ela imaginou que eles nunca esqueceriam.

Ela não queria lembrar. Na verdade, era o que mais queria no momento. Queria esquecer do mundo, das virtudes e dos problemas. Queria esquecer qualquer coisa irredutível martelando em sua cabeça.

Esquecer.

Era um barulho disforme, irregular, acertando-a, atordoando-a.

Virou-se e observou alguns insetinhos na grama. Cutucou-os com o dedo e percebeu seu esforço descomunal para percorrer alguns centímetros. Ficou alguns minutos parada, ate que sentiu que seu rosto estava molhado em lágrimas.

Fechou os olhos, e aqueles momentos voltaram. Aqueles aonde ela tinha visões terríveis; aonde seus pensamentos a inundavam violentamente, mostrando seus erros, mostrando suas falhas. Mostrando as opções, mostrando as respostas impregnadas de mentiras. Vertendo tudo num poço de caos sem fim aparente.

Ela queria as respostas, entretanto, aquelas soluções que surgiam na sua mente eram somente um meio superficial e horrendo criado por ela mesma. Imaginava o medo, a morte. Não queria morrer.

Não, não queria.

Queria descansar, queria estar inconsciente. Queria que não amanhecesse e que ela não precisasse voltar pra casa. Ninguém a odiava, ela sabia disso. Ela mesma se dilapidava por dentro, e regularmente se mutilava. Imaginava como o mundo parecia grande. Ele poderia caber inteiro em seu coração.

Não queria fugir, não queria decepcionar ninguém. Mas seus sonhos a corroeram por dentro, fazendo-a desistir e entender que, um sentido para a vida poderia ser algo muito dificil de se conseguir.

Percebeu que eles já não importavam tanto. Imaginou que isso deveria ser triste. Deveria, de fato.

Olhou para o céu; estava quase amanhecendo.

Não conseguia ao certo distinguir o que deveria ser ruim ou não. Parecia tão subjetivo, tão vasto. Era sua vida. Haviam tantas coisas e por tudo o que imaginara; não queria que fosse triste. Mas os sentimentos pareciam tão absolutos. Imaginou que não queria morrer por eles. Talvez conhecesse outros, com um pouco de sorte. Com um pouco de controle.

Controle.

Enquanto imaginava, seu coração acelerava, sozinho. Ela poderia ouvir; o lugar estava tão quieto que ela poderia ouvir sua respiração.

De repente sentir seu coração parecia doloroso.

Então bebeu mais um gole da bebida e seguiu rumo à cidade; esperando que não desmaiasse no meio do caminho.

Separação

Seus cabelos longos emolduravam seu rosto pálido, sob a manhã de domingo tediosa. Haviam pessoas por todos os lados, pessoas circulando seu mundo, pessoas cuja existência ela desconhecia. Ela não se importava.

Em passos incertos, caminhava na sombra das árvores e dos prédios. Não gostava da fumaça das ruas, mas isto era terrivelmente preferível do que a sua casa habitada por estranhos domesticados.

A data era familiar. Ela teria algo para fazer; algo para concretizar. Ela estivera esperando por isso durante muito tempo; e seu coração acelerava com a idéia de poder fazer aquilo que deveria fazer; encontrar quem deveria encontrar.

Talvez...

Ela tremia e sentia a brisa leve. Estava quente. Seus olhos se fechavam aos poucos com a visão iluminada pelo sol nas ruas. Ela voltou seus olhos para o chão e sentou-se.

Tentava imaginar quem deveria encontrar. Se ela não se lembrava, não deveria ser importante. E sua face parecia tão abatida sob aquele dia inebriante; as pessoas estranhas surgiam de lugares inesperados notando a sua presença pequena, e estendiam suas mãos desconhecidas para que ela recebesse ajuda vinda de outros mundos complexos.

“Como eles poderiam me ajudar?” – Imaginava sem sequer direcionar seus olhos para a face daqueles que esqueciam de suas vidas naquele instante. Logo iam embora.

Logo iam embora.

Há algum tempo ela teria perecido na solidão. Teria ficado horrorizada com a idéia da distópica de abandonar qualquer companhia vulgar.

Contava as memórias, contava os sonhos com os dedos.

“Eu deveria encontrar alguém aqui.”

“Deveria?”

Ninguém veio. Ela não esperou ser lembrada, mas estava curiosa. Levantou-se da calçada suja. Olhou ao redor. A vida parecia tão nova, incrivelmente. Sentiu vontade de dormir, mas precisava andar; precisava andar muito mais. Caminhar sobre aquela rua esquecida e tentar lembrar do seu interior. Provavelmente mais daqueles surgiriam tentando ajudá-la, mas fez uma anotação mental de não se mostrar abatida perante os estranhos.

Eles eram insuportavelmente irrelevantes. Pareciam tão supérfluos como a sua memória que soava importante em seu âmago. Ela estava desaparecendo, mas estava feliz. “Talvez eu não me preocupe mais.”

A chuva veio. O céu escureceu e a brisa cessou. Via as crianças sorrindo e gritando, fazendo brincadeiras e encarnando a vida.

Lembrou-se da vida. Essa era uma memória tão intensa que fora encoberta por um véu sublime de decepção.

Decepção...

Quem a havia decepcionado?

Não se lembrava. Não sabia por quê parecia tão solitária, com aquele vazio incólume no seu interior. Esperava que alguém surgisse e lhe respondesse. Tinha esse direito. Alguém assumiria a culpa por isso.

Alguém. Qualquer um que pudesse gritar e provar a sua existência.

Mas ninguém veio.

Voltou seus olhos para o chão, e via as poças d’água. Caminhava olhando para seu rosto plissado pelas gotas de chuva. Via aquele rosto que não conseguia sorrir, e sentiu ódio. Andava mais rapidamente, tinha medo. Medo de ver. Chutava a água e desfigurava sua face em mil imagens disformes. Correu para algum lugar distante, antes de voltar para casa e começar tudo pelo fim.

Novamente.

Poeira

Eleonora e sua bela face harmoniosa; cada contorno refletia uma irrupção de sentimentos quase resguardados, ínfimos. Perecia sob a beleza e nela se afogava nos solilóquios que corrompiam seus sonhos.

Muita música, e festa. E as pessoas todas sorriam, e as pessoas todas se lembravam. Ela queria que se lembrassem dela. Toda noite bebia uma vodka esperando alguns telefonemas. Ela era imortal, ela poderia fazer qualquer coisa; poderia julgar, dilapidar os corações de qualquer um que se deixasse hipnotizar pelo seu olhar; e seu arroubo e beleza seriam as virtudes mais glorificadas por todos que permeavam seu mundo.

E seu rosto, outrora magnífico, com o tempo se desgastava. Ela sentia que seus contornos simétricos não eram os mesmos que antes a faziam sorrir de contentamento.

Nada parecia com a mais remota idéia do que se fora.

Ah, a Eleonora que se via nos outros. Esta era mais vazia, mas ninguém poderia dizer ao certo. E com a comparação constante se afundava mais naquela Eleonora que chorava no interior. A que pertencia ao seu interior seria somente triste? Seria somente aquela que censura seus atos externos? Ela era somente a que sentia.

Ela era louca. Seus amigos a consideravam glamorosa e remotamente superficial; mas existiam aqueles que alimentavam a idéia de que suas desavenças com o mundo nada mais eram do que um reflexo da profundidade interior.

Se sentia sozinha, queria perceber o vento, a chuva. Queria sentir a vida que todos glorificam.

Queria tocar o céu.

Sim, queria.

Todos os sonhos que surgiam brotando e se arrastando, mutilando os velhos conceitos eram filhos da necessidade. Eram crias da solidão.

Mas ela era mais.

Um dia parou na porta da sua casa velha. Não realizou nem metade daquilo que planejara há muito tempo. Mal podia andar, arrastava os seus pés; e seu rosto plissado que se tornara vergonhoso para si mesma, se movimentava lentamente para ver o céu. Mas sua expressão era tão impassível que poderia refletir o que as pessoas imaginariam como o encarnamento de qualquer ou de toda idéia de paz.

Ela guardava tantas coisas. Ela fingia não se importar. Seus sentimentos eram frequentemente confundidos com nada. Ela esqueceu como demonstrar. Mas ela sentia tanto. Eleonora queria voltar a ser jovem, queria correr e apreciar a fruição da beleza.

Não, isso não importa. Queria muito mais.

Eleonora resguardava seus sonhos, como protegia o encanto fugaz há muito tempo atrás. Eleonora sabia o que queria. Sabia que tudo o que ela antes desejara parecia remotamente insignificante, quando comparado com as novas idéias que brotavam da tristeza. Ela se sentia fraca.

Queria ir para longe.

Não outro lugar, não outra terra mais verde. Não queria outros sonhos, nem queria que seus sentimentos fossem virados ao avesso.

Como a poeira que fragmenta na brisa, como as cinzas que se espalham sob o céu azul; queria ser livre.

Queria ser levada pelo vento.

Disforme

nota: Eu fiz esse texto enquanto estava um tanto irritadiça, mas um pouco mais descontraída do que nos habituais discursos melancólicos que eu sempre costumo escrever; logo, a escrita mudou um pouco. E é isso aí. Ok.


A televisão estava ligada; eu dormi e nem percebi. Acordei e notei que eu estava suando frio. Meus dedos tamborilavam na mesa, enquanto eu cantava uma musiquinha baixa para me distrair; “humm hum”; ao passo de que os vizinhos se espancavam em outra briga do lado. Ah, queria que as paredes fossem mais grossas.

Vesti meu casaco, não queria ficar ali. Teias grossas de aranha enfeitavam morbidamente o teto do meu apartamento pequenininho. Devia fazer uma limpeza; ou não. Eu sorri inocentemente e peguei um cigarro; prestes a sair...

“Toc toc toc”.

“Mas que droga” – Pensei.

“Toc toc toc”.

“Talvez se eu ficar em silêncio esse idiota vá embora.” – Ah, meu humor jovial com as visitas... Minha amabilidade com os estranhos é perturbadora.

“Toc toc...”

Abri de sobressalto esperando ver algum testemunho de Jeová ou algo assim. Mas era bem pior.

- O que você quer?

- É assim que você trata seu noivo?

- Não, é assim que eu trato idiotas.

Ele ignorou e entrou mesmo assim.

- Eu estou de saída, se quiser tem comida na geladeira. Eu me incomodei de comprar por causa da vez que você trouxe sua mãe pra cá.

- Bem oportuno. – Ele sorriu inocentemente. Já sei de quem eu peguei esse hábito cínico; bem em tempo de extingui-lo.

Fiquei parada olhando-o pegar comida e ir embora. Tem sido assim durante algum tempo e de certa forma eu não me importo. Eu suponho. Muitas coisas para me preocupar; eu pretendo entrar em outra universidade logo; que bonito. Mas sem muitas expectativas; toda aquela burocracia que me cerca...

- Ok, eu vou saindo.

- Ah, mas eu vim aqui por sua causa.

- Precisa de dinheiro outra vez?

- Eu sinto a sua falta.

Que engraçado.

- Já falamos sobre isso.

Eu arranhava um pouco meu braço esperando que ele fosse embora; droga.

- Por favor.

Eu saí, ele não me seguiu. Ótimo.

Era um dia potencialmente bonito. O céu nublado, não muito iluminado, como se deve esperar que seja às cinco da manhã. Passei pela praça aonde vi estudantes de uma escola de elite (pff) daqui se drogando. Eles não me notaram enquanto eu prosseguia minha caminhada sem rumo, quando vi duas garotas pseudo-moralistas da mesma escola esperando o ônibus. Engraçado; elas chegam cedo. Eu não me incomodaria muito com isso. Ah, digo pseudo-moralistas por causa do olhar de choque e sussurros descontrolados com minha aparência abatida e roupas surradas. Se bem que se eu fosse elas eu faria a mesma coisa; eu acho.

Sentei na grama na frente de um laguinho pequenininho daqui. Não há nada muito espetacular por aqui, só alguns ‘inhos’ separados e disformes, dando a impressão superficial de que é um lugar bom para se viver. Hum, devia aproveitar que o sol não estava forte. Deitei na grama e tirei meu livro surrado de Baudelaire do bolso. Li até que o sol estivesse forte o suficiente para incomodar meus olhos; mas estava muito frio, então fechei o livro sobre minha barriga e permaneci lá; pensando...

Pensando...

Certo, pensar demais assim não é muito agradável. Tirei outro cigarro do bolso e acendi. Acho que voltei a suar frio; e com a minha febre... Muito bom.

Tossi um pouco; as pessoas estavam começando surgir para aproveitar um sol agradável e tostar suas peles com um piquenique com a família começaram a me notar. Não é que eu odeie pessoas; eu só odeio quando elas me atrapalham. E eu fico sozinha tempo o suficiente para que só a presença delas perto de mim possa me irritar. Talvez seja só uma fase adolescente... Seria, se eu ainda fosse adolescente.

Enfim...

Caminhei até onde as árvores estavam mais juntas, e aonde tinha mais sombra, para poder ler em paz. “Em paz”. Mais ou menos.

Mal abri o livro quando um daqueles loirinhos descolados com gel no cabelo que tem cara de universitários promissores apareceu perto de mim. Esperei que ele não derretesse com minha hostilidade que emanava por lá e simplesmente se afastasse; mas não; foi pior.

- Você gosta de Baudelaire?

- Não, eu odeio.

- Então por que você está lendo?

Eu não esperei que ele identificasse algum resquício de ironia. Gente assim tem problemas com isso. Sério. Eles só saberiam que alguém está sendo irônico se a ironia dançasse na frente deles com uma plaquinha na testa escrita “estou sendo irônico”.

- Hmm, então você gosta de poesias?

Pobre criatura. Eu iria dar um desconto para ele já que eu estava de bom-humor.

- Alguma coisa.

- Que fabuloso. – Eu participei do concurso juvenil de poesias da minha escola ano passado. Fiquei em quinto lugar. Foi um evento muito bonito. Embora eu goste de poesias mais otimistas, acho muito interessante o ponto de vista de Baudelaire.

Fabuloso? Que engraçado. Ele participou do concurso de poesias da sua escola. E ainda ficou em quinto lugar. Pobre miserável; tive pena dele. Será que colocavam drogas no seu suco de laranja com adoçante?

- É mesmo, fabuloso. Eu vou embora. Tchau.

Saí e concluí que era melhor voltar para o abafado da minha casa, ou me importar em voltar àquele lugar num horário mais seguro. Como às quatro da manhã.

Voltei para minha casa, cantando uma música cuja letra eu não conhecia inteira. Completando com ‘la-la-las’ e tudo mais. Abri a porta e vi cacos de vidro espalhados pelo chão. Ah, o desgraçado tinha quebrado meu espelho; tomara que tenha sangrado. Vi um bilhetinho amassado na minha mesa e li rapidamente:

“Line, eu sinto a sua falta e eu lamento muito pelo que aconteceu. Eu estou tentando parar de beber; nunca mais vou encostar um dedo em você. Pelo amor de Deus, nós tínhamos um futuro pela frente. Não me trate com indiferença; não olhe pra mim com sua expressão vazia e finja que está tudo bem; você é a única mulher da minha vida, a única que eu amei de verdade. Ah, eu quebrei seu espelho sem querer, eu trago outro em breve.”

Tinha algum sangue pelo chão então acho que ele se cortou. Que bom.

Certo, caro leitor, foi só isso que eu constatei após ter lido esse discurso piegas e pseudo-qualquer coisa, mas eu o conheço bem demais para acreditar em qualquer idiotice. Essas pessoas realmente gostam de gente estranha. Engraçado.

Eu ainda gosto dele; um pouco. Mas sabe como é. Mágoa contida e exacerbada e toda aquela coisa tediosa só de pensar, então tudo se resumiu a esse “pouquinho”; essa falta que pode ser disfarçada com um cigarro; essa constatação de que minha vida pode caminhar firme agora; esse pequeno desvio de um futuro melhor que eu faço, somente por lembrar de bons momentos.

“Enterre-os”, era minha vozinha conselheira no meu interior. Ela sempre está certa, devo acrescentar. Só preciso treiná-la um pouco para não me abandonar quando eu estiver com problemas, mas fora isso, está tudo ok.

“Está tudo ok?”

Ok.

Foco

Numa Hora qualquer do dia, se dispunha a falar com os amigos. “Está tudo bem, foi tudo ótimo”, divagava enquanto mostrava um sorriso cuja tristeza era percebida por gente que não estava ali.

Sonhava.

Antes de tudo, imaginava o que lhe doía por dentro. Não faz sentido. Quando descartava a si mesmo, sob pretextos de relevâncias maiores, não imaginava o que fazia.

“Eu não vejo a hora”.

Contava os dias, os minutos. Contava as memórias. E as emoções voltavam cálidas e insuportáveis. Tudo lhe deixava inquieto, insone, pensativo. E isso lhe fazia divagar consigo mesmo. Mas ele não era um bom ouvinte.

Ao contrário de suas pequenas doses mortíferas.

Estava descontrolado. Era um dia como qualquer outro dia. E confirmara isso pensando nas mesmas coisas tediosas e chorando com os sonhos bons.

Chorando.

Não havia esperança, não havia controle. Enquanto insistia que sua alma não estava remendada em pedacinhos frágeis; já não percebera como ela se tornava passiva e silenciosa.

Ela não o governa mais.

Oh, o caos que permeia o mar de rosas. A inocência fugaz que habita os corações dos desavisados. “Não, eu não quero”.

“Não”.

“Sim”.

Agora já possuía outra alma. E a observava de longe, enquanto seu coração disparava disforme com as lágrimas sinceras.

Permanecia quieto, perscrutava o interior por novas informações. Esquecia de tudo naquele dia aonde o cliclo se iniciava; cujo final se escondia no canto mais triste do seu coração essencialmente solitário.

“E isso é tudo”.

Frio

À noite quando seus sonhos a consumiam e permeavam por entre sua mente frágil e despreparada, distante e perdida; acordara precipitadamente, sem qualquer motivo. Somente uma sensação em seu peito mesclada com os artroses pensamentos provocados pela sua solidão iminente, permanecia sufocante.

Estava assustada, o vento frio vinha da janela, mas ela não a fechou. Tentou dormir, mas novas idéias martelavam e sobrepunham seus pensamentos antigos. Tudo se tornava gradativamente pior com o tempo. Não lembrava ao certo desde quando permanecia em sua solidão, e desde quando sua fome voraz de vida fora, de forma sublime, encoberta por um véu de incerteza e desânimo.

Ouviu um barulho e, de sobressalto, sentou-se na cama. Assemelhava-se a um eco abafado e disforme. Não distinguia a presença de qualquer voz, entretanto, não sabia ao certo com o que se parecia. Talvez um sussurro ou um lamento. Ficou parada, apurando a audição, até perceber que o som sumira e que o eco triste permanecia apenas em sua mente.

- Será que estou enlouquecendo?

Voltou a deitar-se e dessa vez, adormeceu rápido. Sonhara com situações pitorescas, estranhas, mas o pior de tudo, ou talvez o mais estranho, foi o fato de ter se deparado com o mesmo barulho de antes. Não tinha medo, mas soava tão estranho como nada que sentira em sua vida. Tinha frio, e percebeu que, ao seguir o som, agora mais alto, chegava num lugar solitário e habitado somente por uma pessoa.

Era um homem de estatura mediana, possuía cabelos brancos e longos. Ela não conseguia distinguir se ele era jovem ou velho. Parecia cansado, parecia saber que ela estava ali, parecia não se importar. Ele não se importava com nada aparente e parecia tão conformado com o que quer que fosse, que ela se sentiu sufocada por dentro. Sentiu-se solitária, desesperada. Até que, como ele percebesse tamanhos sentimentos equivocados, olhou-a nos olhos. Não demonstrou ternura, não demonstrou desprezo. Parecia um olhar acolhedor de alguém que te aceita da forma mais verdadeira e inexplicável.

Ela se sentiu fria, mas não tinha medo. A figura parecia querer dizer para ela não se aproximar. Ele a acolheria, mas não agora. Ainda haveria outro ser, tão verdadeiro como ele, mas tão distante que provavelmente eles jamais poderiam se tocar, embora se compreendessem mutuamente e aceitassem suas necessidades inversamente proporcionais. E ela absorveu todas essas idéias apenas com um mero contato visual, ficando perplexa sobre o quê ou quem era, de fato, aquela criatura que permanecia tão sublime e indiferente à paisagem triste. Foi quando ela, após toda essa voracidade de sentimentos repentinos, tristes, estranhos, felizes, indagou-se e constatou de forma confusa, a identidade daquela figura que parecia tão antiga, manifestando com uma breve pergunta:

- Seria a morte?

E de sobressalto acordou. Percebeu que o eco que antes inundava sua mente agora preenchia seu quarto, mas no mesmo segundo desapareceu. Imaginou ter visto um semblante pálido na janela, mas apurou a visão e constatou que não era nada.

Esqueceu completamente daquele sonho em particular, mas o fim de sua noite solitária fora acalentada pelo frio da morte e pelos sonhos da vida. Não entendia mais a razão de qualquer medo, agora com os olhos fechados, enquanto dormia silenciosamente, esperando por mais uma manhã desconhecida.

Eco

Acalentada pela falta e pelo vazio. Perscrutava o interior em busca de informações, mas somente se afundava mais naquilo que não conhecia. Os seus sonhos eram minados, transformados, moldados em prol de uma viagem distante e perdida pelo mundo das idéias. Não se afastava muito de si mesma. Tinha medo do que acontecia.

Delirava.

À noite, sonhava com a realidade e confundia o abstrato sentido de tudo com a ausência de uma consciência que havia se perdido entre tantas informações. Ela e sua essência triste eram quase que necessariamente solitárias; mas deixava as indagações profundas para depois.

Gritava e se contorcia de dor, sob uma face sem expressão. Olhava inconscientemente para o céu, mas era tão pequena. Nunca conseguiria se distanciar do nada e procurar pelo azul, para abandonar sua idéia de liberdade e descobrir que nada havia para se tocar. Mas era somente muito mais...

Procurava pelos sons. Os que surgiam não lhe eram familiares. Levou algum tempo para descobrir que nada lhe soava minimamente familiar. Deu um pequeno sorriso e concebeu a nova idéia, assim como poderia guardar o mundo em seu pequeno coração cansado.

Não havia mais noite, não havia mais dia. As lágrimas se tornaram fruto de uma idéia de algo que nunca surge. Não haviam sons familiares, nem ninguém mais que pudesse ouvi-la. Seria pedir demais que ouvissem um eco distante projetado nas idéias do interior de algo tão enegrecido. Permanecia no delírio frenético e se agarrava ao que lhe fazia desistir; distribuindo sorrisos imitados e palavras que eram tão vazias quanto ela mesma.

“Mas ela era tão jovem...”.

Inocência

Um sonho adornado em lágrimas. A criança que tinha tudo pela frente se afogou naquilo que todos mais temem inconscientemente. Deveria ser a essência de toda a felicidade e de tudo aquilo que todos esperam e tomam como sentido da vida, mas ela somente conhecia a mentira encoberta pela beleza. Não que tudo tivesse desabado em prol de suas escolhas mal-feitas. Não eram as escolhas; na verdade, em toda a sua vida, ela nunca havia tido escolhas. Não havia problema digno de ser reconhecido como problema, mas tudo ao redor dela inspirava a decadência. Ela aspirava a inocência perdida enquanto buscava qualquer coisa distante. Qualquer coisa afastada de tudo.

Baldadamente buscava o significado de toda e qualquer amenidade passageira. Apreciava tudo que fosse distante e inspirador, mas fugia dos momentos aonde ela se confrontaria com aquela que ela mais teme. Dizendo as verdades mais terríveis com escárnio de todo o seu esforço perdido em prol de assuntos vagos e distantes. Temia se encontrar consigo mesma. Mentia para se proteger da consciência interior que a assombrava durante sua solidão.

Circunspeta e hermética, havia se distanciado de todos como sempre fazia; deveria estar acostumada, mas os desejos... Os desejos gritavam subjugando todo o esforço que ela fazia para desprezar e se sentir alheia aos seus iguais; aqueles perdidos que careciam de um sentido para a vida. Os seus sentimentos cortavam-na por dentro, a faziam chorar escondida, a faziam se sentir humana; pérfida, inferior.

Eles estão lá, acima, alheios. Eles observam todos os seus sonhos superficiais.

Ele está lá, ele mente toda a dor que você sente, fumando um cigarro e forjando lágrimas egoístas. Ele implora por um afeto escondido e descompromissado; mais uma noite alheia a todas as outras pessoas. Ele a toma em seus braços com sua motivação momentânea, mas você pode sentir toda a poesia escondida nas possibilidades tristes; unicamente por não passarem de possibilidades. Você se sente vulnerável, usada; uma carcaça vazia, pequena e distante. Seus sonhos são projetados todos em um só lugar; você sabe das conseqüências disso tudo, embora não tenha escolha; você nunca teve e, por Deus! Você é somente uma criança.

Corda

Você era assim, plissada de anos formados numa essência longínqua que se contrapõe a tudo em que você acredita. Tudo é uma mentira, insípida, superficial, desagradável; como o seu olhar e atenção fingidos, em troca de pequenas esmolas de afeto. Eras o mundo inteiro; e ainda és. Tens uma consciência exacerbada, entretanto, seu foco se perdeu na contradição do que você é e o que você representa para o mundo e para ti mesma.

As festas, os bares sujos, você é tudo isso. A subvida te leva por caminhos de mundos paralelos, distantes perdidos em meados de valores tão discrepantes da sua conduta. Você não é tão graciosa e seus movimentos são lentos, relutantes e grosseiros. Você luta contra o nojo, a frustração e contra seus pensamentos que eram seu único porto-seguro e agora são sua única e tênue corda para a forca.

Quando se suscitava a primavera nos corações perdidos, você inaugurava a novidade focada naquilo que soava originalmente pérfido. Você fingia inconscientemente, mais uma vez, acreditando na dor libertadora dos afastados; acreditando na redenção dos mártires sem causa e sem valor.

Enquanto se perdia dentro de si mesma, sendo obrigada a viver dia após dia, um sorriso pequeno tomava sua face, e as lágrimas convalescentes... As lágrimas já não existiam.

Céu

Banhada pela inconstância das carícias inquietas. Era um sonho tocado pela fruição de sentimentos; nada mais. À medida que ela percebia a realidade, se jogava violentamente no erro. Que erro? Era um sonho. Um sonho belo acarinhado pelo véu da pseudo-consciência. Não queria mais chorar, só por felicidade; só por outro sonho ilusório no campo vasto dos amores. Vasto como o céu; infinito como o universo.

Corrompia o ser que permeava sua sombra de vida. Corrompia tudo de forma tão bela e poética. Era como a verdade. Seu alarido era constante e alegre; sua alma permutava-se em divindade sempre que surgia entre os cegos para sussurrar novos sopros de vida. Disseminava-se pelo mundo; corroía o interior. Ela era tudo que nunca quis. Seu fenecimento foi esquecido enquanto em terras longínquas ,desfrutavam dela mesma, enquanto viva. Ela era uma memória vulgar, ela era um sopro de nada.

“Encubra e escureça minha visão, me afaste de tudo novamente; eu estou cansada das luzes”.

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