nota: Eu fiz esse texto enquanto estava um tanto irritadiça, mas um pouco mais descontraída do que nos habituais discursos melancólicos que eu sempre costumo escrever; logo, a escrita mudou um pouco. E é isso aí. Ok.
A televisão estava ligada; eu dormi e nem percebi. Acordei e notei que eu estava suando frio. Meus dedos tamborilavam na mesa, enquanto eu cantava uma musiquinha baixa para me distrair; “humm hum”; ao passo de que os vizinhos se espancavam em outra briga do lado. Ah, queria que as paredes fossem mais grossas.
Vesti meu casaco, não queria ficar ali. Teias grossas de aranha enfeitavam morbidamente o teto do meu apartamento pequenininho. Devia fazer uma limpeza; ou não. Eu sorri inocentemente e peguei um cigarro; prestes a sair...
“Toc toc toc”.
“Mas que droga” – Pensei.
“Toc toc toc”.
“Talvez se eu ficar em silêncio esse idiota vá embora.” – Ah, meu humor jovial com as visitas... Minha amabilidade com os estranhos é perturbadora.
“Toc toc...”
Abri de sobressalto esperando ver algum testemunho de Jeová ou algo assim. Mas era bem pior.
- O que você quer?
- É assim que você trata seu noivo?
- Não, é assim que eu trato idiotas.
Ele ignorou e entrou mesmo assim.
- Eu estou de saída, se quiser tem comida na geladeira. Eu me incomodei de comprar por causa da vez que você trouxe sua mãe pra cá.
- Bem oportuno. – Ele sorriu inocentemente. Já sei de quem eu peguei esse hábito cínico; bem em tempo de extingui-lo.
Fiquei parada olhando-o pegar comida e ir embora. Tem sido assim durante algum tempo e de certa forma eu não me importo. Eu suponho. Muitas coisas para me preocupar; eu pretendo entrar em outra universidade logo; que bonito. Mas sem muitas expectativas; toda aquela burocracia que me cerca...
- Ok, eu vou saindo.
- Ah, mas eu vim aqui por sua causa.
- Precisa de dinheiro outra vez?
- Eu sinto a sua falta.
Que engraçado.
- Já falamos sobre isso.
Eu arranhava um pouco meu braço esperando que ele fosse embora; droga.
- Por favor.
Eu saí, ele não me seguiu. Ótimo.
Era um dia potencialmente bonito. O céu nublado, não muito iluminado, como se deve esperar que seja às cinco da manhã. Passei pela praça aonde vi estudantes de uma escola de elite (pff) daqui se drogando. Eles não me notaram enquanto eu prosseguia minha caminhada sem rumo, quando vi duas garotas pseudo-moralistas da mesma escola esperando o ônibus. Engraçado; elas chegam cedo. Eu não me incomodaria muito com isso. Ah, digo pseudo-moralistas por causa do olhar de choque e sussurros descontrolados com minha aparência abatida e roupas surradas. Se bem que se eu fosse elas eu faria a mesma coisa; eu acho.
Sentei na grama na frente de um laguinho pequenininho daqui. Não há nada muito espetacular por aqui, só alguns ‘inhos’ separados e disformes, dando a impressão superficial de que é um lugar bom para se viver. Hum, devia aproveitar que o sol não estava forte. Deitei na grama e tirei meu livro surrado de Baudelaire do bolso. Li até que o sol estivesse forte o suficiente para incomodar meus olhos; mas estava muito frio, então fechei o livro sobre minha barriga e permaneci lá; pensando...
Pensando...
Certo, pensar demais assim não é muito agradável. Tirei outro cigarro do bolso e acendi. Acho que voltei a suar frio; e com a minha febre... Muito bom.
Tossi um pouco; as pessoas estavam começando surgir para aproveitar um sol agradável e tostar suas peles com um piquenique com a família começaram a me notar. Não é que eu odeie pessoas; eu só odeio quando elas me atrapalham. E eu fico sozinha tempo o suficiente para que só a presença delas perto de mim possa me irritar. Talvez seja só uma fase adolescente... Seria, se eu ainda fosse adolescente.
Enfim...
Caminhei até onde as árvores estavam mais juntas, e aonde tinha mais sombra, para poder ler em paz. “Em paz”. Mais ou menos.
Mal abri o livro quando um daqueles loirinhos descolados com gel no cabelo que tem cara de universitários promissores apareceu perto de mim. Esperei que ele não derretesse com minha hostilidade que emanava por lá e simplesmente se afastasse; mas não; foi pior.
- Você gosta de Baudelaire?
- Não, eu odeio.
- Então por que você está lendo?
Eu não esperei que ele identificasse algum resquício de ironia. Gente assim tem problemas com isso. Sério. Eles só saberiam que alguém está sendo irônico se a ironia dançasse na frente deles com uma plaquinha na testa escrita “estou sendo irônico”.
- Hmm, então você gosta de poesias?
Pobre criatura. Eu iria dar um desconto para ele já que eu estava de bom-humor.
- Alguma coisa.
- Que fabuloso. – Eu participei do concurso juvenil de poesias da minha escola ano passado. Fiquei em quinto lugar. Foi um evento muito bonito. Embora eu goste de poesias mais otimistas, acho muito interessante o ponto de vista de Baudelaire.
Fabuloso? Que engraçado. Ele participou do concurso de poesias da sua escola. E ainda ficou em quinto lugar. Pobre miserável; tive pena dele. Será que colocavam drogas no seu suco de laranja com adoçante?
- É mesmo, fabuloso. Eu vou embora. Tchau.
Saí e concluí que era melhor voltar para o abafado da minha casa, ou me importar em voltar àquele lugar num horário mais seguro. Como às quatro da manhã.
Voltei para minha casa, cantando uma música cuja letra eu não conhecia inteira. Completando com ‘la-la-las’ e tudo mais. Abri a porta e vi cacos de vidro espalhados pelo chão. Ah, o desgraçado tinha quebrado meu espelho; tomara que tenha sangrado. Vi um bilhetinho amassado na minha mesa e li rapidamente:
“Line, eu sinto a sua falta e eu lamento muito pelo que aconteceu. Eu estou tentando parar de beber; nunca mais vou encostar um dedo em você. Pelo amor de Deus, nós tínhamos um futuro pela frente. Não me trate com indiferença; não olhe pra mim com sua expressão vazia e finja que está tudo bem; você é a única mulher da minha vida, a única que eu amei de verdade. Ah, eu quebrei seu espelho sem querer, eu trago outro em breve.”
Tinha algum sangue pelo chão então acho que ele se cortou. Que bom.
Certo, caro leitor, foi só isso que eu constatei após ter lido esse discurso piegas e pseudo-qualquer coisa, mas eu o conheço bem demais para acreditar em qualquer idiotice. Essas pessoas realmente gostam de gente estranha. Engraçado.
Eu ainda gosto dele; um pouco. Mas sabe como é. Mágoa contida e exacerbada e toda aquela coisa tediosa só de pensar, então tudo se resumiu a esse “pouquinho”; essa falta que pode ser disfarçada com um cigarro; essa constatação de que minha vida pode caminhar firme agora; esse pequeno desvio de um futuro melhor que eu faço, somente por lembrar de bons momentos.
“Enterre-os”, era minha vozinha conselheira no meu interior. Ela sempre está certa, devo acrescentar. Só preciso treiná-la um pouco para não me abandonar quando eu estiver com problemas, mas fora isso, está tudo ok.
“Está tudo ok?”
Ok.